O maná dos céus e o da mente

Wheat Field with Cypresses (Vincent van Gogh, 1889) - www.metmuseum.org

Wheat Field with Cypresses (Vincent van Gogh, 1889) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Sempre me encantou a história do maná que Deus enviava ao povo hebreu todas as manhãs durante os anos em que fazia sua longa viagem de travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Alimento novo a cada manhã. Alimento que não servia para ser consumido depois, nem sequer na manhã seguinte. Ele simplesmente apodrecia e morria junto com o dia que acabava.

E o alimento da alma, qual será? Nossa mente se alimenta do que pensamos. Ela se alimenta do que interpretamos de tudo o que nos acontece.

E qual é o alimento que damos à nossa mente todos os dias? O pão nosso de cada dia da alma é o olhar nosso de cada dia.

Porém, o olhar nosso de cada novo dia – lembrando que cada dia só pode ser novo e se não for é porque o dono do dia está dodói da percepção – pode estar desfocado, embaralhado, ocupado com imagens antigas, vendo filmes e tragédias de nosso passado. Quando você bater na porta querendo entrar, vai ler na porta de seu olhar: “Ocupado com o passado e o futuro”, o que equivale a dizer “ocupado com o rancor, o vitimismo, a felicidade que acabou, o que seria e não foi”. Ou então, “ocupado com a ansiedade do que virá e também com os eternos sonhadores – que se ocupam com suas ilusões que nunca viram realidade”.

Ao pensar no futuro com a alma presa no passado – enquanto é de viver o presente que se trata -, o medo de sofrer a mesma e conhecida dor de antes leva a uma ansiedade provocada pela “certeza” que nos torna uma presa fácil e submissa. É um medo/certeza de que retornem acontecimentos que estão mortos. Que foram e não são mais, a não ser que o tragamos de volta com o nosso olhar-mente. No fundo, são crenças em “verdades acabadas” – acabadas mesmo, findas, que não mais existem. Crenças em verdades acabadas que são vividas como “verdades eternas”, ou “verdades imutáveis”.

Se você fica preso a uma explicação cristalizada (“eu sou tão preguiçoso” ou “cozinhar é ruim demais”), você cria certezas que não te deixarão descobrir o novo, se surpreender com você mesmo. Quem sabe descobrir um “você novo e desconhecido” do qual pode gostar bastante?

Você pode ficar maior, mais fortalecido, mais expandido e mais livre, se for alimentado do maná-dos-céus-da-mente, que está novinho e à nossa disposição para a colheita diária.

Uma analisante afirmava insistentemente que seu sonho era de que pelo menos um rapaz gostasse dela. Afirmava que era “uma moça que ninguém quis”. Precisei de pouco tempo para fazer uma pequena lista do que ela já havia me relatado de namoros que não foram para frente. Detalhe: não continuaram porque ela não quis. Mas os poucos casos em que os namorados terminaram prevaleceram sobre toda a realidade dos fatos. Ela via sempre a mesma história que ela mesma se contava.

Ver com olhar novo os velhos fatos nos dá um novo sopro de vida. Nos faz mudar do lugar aprisionador e imutável no qual nos reproduzíamos dia após dia comendo maná-podre-da-mente.

O que nos falta é amanhecer com olhos novos. É comer o maná novo de cada dia. É o maná-olhar! A comida que o olho vê e engole mandando alimento – renovado ou podre – para dentro da nossa alma diariamente. E o nosso estado de espírito é mantido bom ou ruim conforme a qualidade do que escolhemos comer.

Não pulemos fora disso: a escolha do que pôr para dentro é nossa, o prazer ou sofrimento é a consequência óbvia.

O pão-nosso-de-cada-dia, como expressa a metáfora do maná, é sempre novo. Colher o maná-olhar-de-cada-dia é aproveitar o que vem, o que acaba de acontecer. É nos apossarmos da surpresa, do inesperado e fazê-los parte de nosso novo dia.

É fazer uma diferente interpretação do que surge, porque sempre surge em uma contextualização nova, e desta forma ir criando e sustentando nada menos do que… a nossa nova-vida-de-cada-dia.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 16 de julho de 2015.

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