Especial Namorados (III): Dançar na cama

Diana and Endymion (George Frederic Watts, 1891) - www.metmuseum.org

Diana and Endymion (George Frederic Watts, 1891) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

É impensável escrever uma trilogia sobre o namoro, um presente que quis dar aos meus leitores-namorados no mês dos namorados, sem falar em cama.

Há duas semanas, escolhi a metáfora da dança para falar de namoro. Namorar, para mim, é um processo de conhecer o outro que jamais terá fim para os que não morrem no marasmo, tentando garantir a posse do outro ou a posse da situação de ter alguém.

Dançar no salão, dançar na vida e dançar na cama.

Penso que só dançamos bem na cama se dançamos bem com o corpo próprio e com o corpo do ser amado. Se dançamos nos olhares que ainda buscam interpretar as luzes ou as sombras que passam pelo olhar de quem queremos bem.

Se dançamos nos múltiplos sorrisos que desabrocham em diferentes intensidades para dizerem tantas coisas. Pequenos grandes milagres do dia a dia que muitas vezes ignoramos. Um roçar de dedos, uma mão que desliza sobre o nosso braço, uma mão espalmada que nos percorre os cabelos e nos aperta a nuca.

E os abraços, então! Desde os mais suaves, amigos, ternos, carinhosos, até os mais arrebatados, ferozes e possessivos. Abraços cheios de eletricidade, de choques que percorrem as veias, que bambeiam as pernas, que botam o coração para dar pulos.

Beijos são uma parte toda especial. Pelo beijo entra-se dentro do corpo do ser amado também. Nele entramos no coração, nas entranhas, no mais fundo do peito que arfa buscando mais ar e mais presença da outra boca na nossa. Beijos suavemente sedosos percorrendo etapas de nosso corpo ou tomando posse de outras de forma afirmativa, possessiva e apaixonada.

Dançar no corpo do outro. É isso que se passa entre duas pessoas que usufruem de tal intimidade. Dentro do mesmo princípio do ativo e passivo, do que toma e do que dá, a cada encontro, de acordo com o seu desejo naquele exato momento.

Dançar na vertical é o maior preparo para a dança perfeita na horizontal. Dançar falando belas palavras à pessoa amada. Emprenhando sua alma pelas palavras que lhe conferem o sentimento de existir no reconhecimento do amado que lhe percebe as características mais sutis, que lhe faz descobrir sobre si, coisas que nem suspeitava. Redescobrir-se no amor é muito gostoso!

Palavras, toques, olhares, tudo isso misturado em receitas únicas que a cada momento que nos produzem perfumes insondáveis.

Levamos alguém para cama quando temos firmeza de caráter, a alma carinhosa e uma ética pessoal. Ética que não se trata de uma obediência cega ao que é considerado “certo ou errado” sem nos darmos ao trabalho de julgar e tomar para nós o peso das escolhas por responsabilidade pessoal, sem eleger ninguém para imputar os resultados não exitosos.

Muito atraente quem se valoriza, valoriza as pessoas e o mundo ao seu redor. Muito atraente quem sabe o que quer e vai atrás sem subterfúgios. É mesmo muito sedutor quem não vive “se explicando nem se justificando”, vestido da pele de sua própria identidade sem plagiar nenhum modelo televisivo nem intelectual.

Levar para cama o amado que tão bem conhecemos e que ao mesmo tempo desconhecemos totalmente é comparável a subir o Monte Everest, descer ao mais fundo oceano, voar pelas correntes de vento mais insondáveis.

O encontro de dois seres humanos em sua infinita riqueza subjetiva é comparável a qualquer grande feito digno de estar relatado nos livros que manterão vivos feitos únicos dos da nossa espécie.

Estar na cama com alguém a quem admiramos, amamos e desejamos tem a força para lavar a alma de toda dor e recomeçar limpinho por dentro, para viver mais um dia ensolarado, envolvido na brisa fresca, perfumada e oxigenada que é própria da vida de quem aprendeu a se amar, a amar e usufruir do prazer de ter corpo e compartilhá-lo numa relação, que pode durar toda a vida, e que se chama namoro.


Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 25 de junho de 2015.

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