Especial Namorados (II): Quem comanda o casal na dança?

Dancing Couple (Boardman Robinson, 1924) - www.metmuseum.org

Dancing Couple (Boardman Robinson, 1924) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Prólogo: esse mês especial em que decidimos como cultura celebrar o encontro com o ser amado que chamamos comumente de “namoro”, quero passá-lo com você, meu leitor, a falar das novas formas de namorar que já estão no mundo. Você talvez nem tenha se dado conta e está perdendo a festa.

Falemos hoje do namoro a partir da dança de dois!

Fui criada sendo ensinada que, na dança, o homem deveria conduzir e a mulher, seguir. Que com dois conduzindo seria impossível haver dança.

Dançar é fazer dois em um. É o imenso prazer de voltar a fazer um de dois corpos. Então um pensa e o outro obedece, certo? Certíssimo! Isso mesmo!

Posso dizer isso porque tenho tido aulas de dança de salão com um grande professor, Felipe Mazetto Perin. São aulas não só de dança, mas de teoria subjetiva, de filosofia, arte, sociologia, história… encontros para dançar e aprender.

Aprendi muitas coisas sobre o novo modo de dançar com ele que compartilho com você. E ainda lanço a minha pitada de psicanálise porque tenho descoberto que dançar a dois é uma grande metáfora da relação amorosa entre o casal.

Ensinou-me Felipe que, de saída, a primeira condição do dançar é saber onde está o nosso próprio peso (onde o corpo está apoiado – pé esquerdo, direito ou no centro).

A segunda é saber quem está propondo. O que antes era só tarefa masculina hoje não é mais. Na dança, que está mudando com o mundo, quem propõe não está mais determinado pelo sexo, mas pela posição de se estar mais a fim de agir (ativo) ou de seguir (passivo), a cada momento. E isso sem juízo de valores. Não tem posição melhor do que a outra, mas desejos diferentes a cada momento.

A princípio, pode até parecer o caos, mas não, é muito prazeroso e criativo não se saber de antemão quem propõe. Vive-se cada passo sem saber qual será o próximo e, de repente, um toma a dianteira e propõe. É deliciosamente surpreendente.

Felipe me diz sorrindo que, nessa nova forma de se encarar a dança de casal, quem está de fora não sabe qual dos dois está dirigindo e qual está seguindo. É um segredo da intimidade do casal.

Achei linda essa intimidade própria do casal que dança a música do século 21!

E dançar dessa forma é possível?

Na dança, os deslocamentos se dão com cada parceiro sempre voltando para a base – o que na subjetividade podemos expressar como o nosso núcleo, o ponto-de-ser que cada um de nós tem. É só a partir daí que se conseguirá sair para o próximo passo, quer seja seguir o outro ou conduzi-lo. É sempre da nossa base, do nosso lugar de equilíbrio que nos lançamos para novos passos na dança e na vida.

A nossa base é que é o “ponto de encontro” com o outro.

A partir da nossa base, nos deslocamos com a segurança de encontrar o outro – que não é garantido. Mas a segurança vem de nossa posição e não da dele. O “ponto de encontro” é um ponto de conforto.

Quem segue só o fará a partir da sua base também porque precisa oferecer ao outro um corpo equilibrado – do ponto de vista psíquico é um corpo inteiro, não despedaçado – para que o outro tenha o que usar, senão os dois se desequilibram. É um “eu estou te presenteando com o meu corpo inteiro”.

E a gente não dá presente quebrado para ninguém! Corpo presente é corpo inteiro na cena. Se está aqui, está aqui comigo e não em outro lugar. Presença e inteireza são sempre um grande presente que podemos dar às pessoas amadas.

Por isso, deixar-se ser levado, ser conduzido na dança e na vida, numa deliciosa pulsação (“agora é minha vez, agora é a do outro”), não se trata de humilhação, mas da capacidade de sentir prazer na boa medida entre passividade e atividade.


Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 18 de junho de 2015.

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