Novas interações pais e filhos

A Musician and His Daughter (Thomas de Keyser, 1629) - www.metmuseum.org

A Musician and His Daughter (Thomas de Keyser, 1629) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Dizemos que a função dos pais é a de educar seus filhos e que quando estão ensinando, dando lições e explicações, mostrando o que é certo e o que é errado, estão exercendo tal função. É isso educar?

Os filhos aprendem com os pais, é fato, aprendem inclusive aquilo que não estava nos planos. Se os filhos aprendessem com os ótimos conselhos que os pais lhes dão, o mundo seria um paraíso. Pais só dão bons conselhos para os filhos. Então qual é o problema? Os pais ensinam tão bem por que será que os filhos não ouvem, não obedecem, não fazem a coisa certa? Seria tudo tão mais fácil.

Primeiro, vamos pensar um pouquinho sobre o que as crianças precisam, além dos conselhos prodigamente distribuídos?

De acordo com um dos maiores centros de pesquisa em primeira infância do mundo, o Center on the Developing Child (CDC), da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, sabemos hoje, como nunca antes, das necessidades das crianças. Isso é possível graças ao gigantesco desenvolvimento das neurociências, da biologia molecular, das ciências do desenvolvimento e da genética.

Os pesquisadores do CDC afirmam que a criança necessita ter adultos confiáveis, que possam lhes oferecer relações protetivas e uma presença tranquilizadora que a ajude a lidar com as adversidades ininterruptas que fazem parte do processo de crescimento.

Adversidade é aquilo que não é esperado e que irrompe em nossa vida e causa surpresa. Só se não for bem manejada é que a adversidade pula da surpresa para o susto, para o medo, para a certeza da repetição do ocorrido. Aí sim, ela é incorporada como algo ruim. E poderia ter sido algo diferente e novo, que passaria a ser conhecido e a ter um lugar na vida da criança.

O corpo responde à ausência daquilo que é esperado. O novo assusta e precisa de um adulto que auxilie a criança a lidar com a frustração ou o estranho.

Na ausência física ou emocional dos pais a criança não tem alguém do seu lado vivendo as experiências de vencer cada obstáculo que vem. Andar, por exemplo: a criança precisa da mão que a segura quando ainda não dá conta, mas também da voz encorajadora, do olhar que brilha diante de seus sucessos.

Quando algum sucesso vem e não tem a chancela de um adulto, ele parece não se confirmar, e ficam aqueles adultos que vivem perguntando com os olhos e gestos se o outro viu o que ele fez. Se aquilo de fato existe ou não. Tivera tido ele as confirmações necessárias à construção de suas apreensões da vida, teria muito mais autonomia, pois teria introjetado as certezas que o adulto lhe deu, transformando-as em autoconfiança.

Esses cientistas norte-americanos afirmam que as experiências da primeira infância – de zero a cinco anos de idade – constroem o nosso corpo, constroem a arquitetura de nosso cérebro, o sistema imunológico, metabólico e cardiovascular –, pois presidem o seu funcionamento.

Ora, mas o corpo e seu funcionamento não eram herança genética? A epigenética – parte da genética que estuda hoje a influência do meio sobre o ser humano – está aí para nos demonstrar a imensa força que tem os fatores relacionais no corpo do ser humano.

Desta forma, os pesquisadores se deram conta de que, sim, as crianças precisam de tudo isso para se tornarem adultos que “trabalhem e amem bem”, como disse Freud. Também perceberam que esses pais não existem por aí facilmente, é preciso ajudá-los a ser, para só depois conseguirem passar aos filhos.

Precisamos construir nos pais esses meios para que eles tenham o que oferecer aos filhos.

Não é conselho e nem boa intenção, e sim a capacidade de transmitir a segurança e a tranquilidade necessárias para que o ser humano que foi “educado”, tendo sido atendidas essas necessidades, consiga sofrer menos e ser mais feliz por saber o que fazer com as adversidades colocadas pela vida. E isso não só no começo, mas até o último dia de sua existência.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 22 de maio de 2015.

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