Seres do passado

Luciene Godoy //

Quem não conhece sua história está condenado a repeti-la – frase de Freud ou de Mao Tsé-tung? Dos dois, pois Freud afirma que o que foi recalcado aparece na repetição neurótica. Já Lacan diz que o que foi foracluído – mantido fora – retorna nos atos impensados.

Muitas maneiras de se falar que o passado retorna. Retorna sendo reencenado no presente, sem o conhecimento do ator, note-se bem.

Quem repete o passado não vê o que está fazendo. Notam os que estão perto ou o próprio – quando vê as consequências do que fez – e aí pode afirmar: “De novo, não! Fiz a mesma besteira”. Mas não se iluda! Na próxima oportunidade fará o mesmo de novo.

Qual é a maldição?

É que o ser humano parece uma máquina de transformar presente em passado!Um processador implacável em que tudo o que acontece e é fresco é imediatamente jogado no lado fétido do morto/acontecido.

Para fugir do sofrimento, nos precipitamos sobre ele, o incorporamos de novo, o revivemos incessantemente.

E no tormento de estar no passado, sem saber, tememos o avançar dos acontecimentos como se o futuro nos reservasse mais sofrimento.

Se você duvida, vamos a algumas histórias reais.

Uma linda moça, quando criança, tinha apanhado muito do pai e não deixava nenhum namorado tocá-la quando faziam amor. Dizia ela que o toque do ser amado era um desprazer insuportável. Seu corpo continuava sendo possuído pelas chicotadas do pai depois de 30 anos.

Um senhor de 60 anos tinha sido separado da família aos 15, após a morte da mãe, e passou uma vida inteira sofrendo a síndrome do “boi de bicheira”. Tendo se casado e tido filhos amorosos, além dos amigos que lhe queriam calorosamente – com razão, pois conquistava a todos com seu jeito afetuoso –, não conseguia pegar as enormes manifestações de amor e inclusão que lhe eram frequentemente oferecidas. Lutava para consegui-las, mas, quando vinham, eram rejeitadas. Nesse momento ele recuava e pegava, de novo, o papel do enjeitado e se excluía.

O bem-sucedido executivo que teve uma mãe ausente e fria e que se casou com uma calorosa e apaixonada mulher, que era incessantemente – não é força de expressão – atormentada com cobranças de ausências inexistentes. Ao invés de viver com a esposa que era tudo o que ele queria na vida, deixava-a no presente e fugia para o passando para continuar a viver com a mãe ausente.

Todos somos o que fomos. Mesmo? Isso não é justo conosco! A vida é movimento!

Temos uma cegueira do que conseguimos transformar. Conseguimos sair de sapos a príncipes e princesas e nunca o notamos, nunca estamos satisfeitos com nada do que fazemos nem do que somos. Também não aceitamos os “novos reconhecimentos: quando alguém vê o que somos, logo, logo, o reconhecimento volta para a antiga imagem, cai no passado.

Máquina de transformar presente em passado.

Máquina que tritura o novo e o torna o mesmo de antes.

Máquina de não deixar a vida andar, de não reconhecer o novo, a mudança, o momento, o presente.

A verdadeira máquina mortífera que nos afunda no lodo do mesmo, na prisão de uma história vivida, mas que não mais existe.

Se quisermos mesmo, podemos pôr o passado no passado. Parar de sentir sempre o mesmo é possível. O ser humano é uma metamorfose ambulante, se você ainda não experimentou isso, não sabe o que está perdendo.

Está perdendo viver o presente, se refugiando no passado.

Está perdendo a vida e escolhendo a morte do fixo.

As três histórias que contei são de pessoas que tinham escolhido viver no passado, mas não sabiam exatamente que era uma escolha.

Agora que você já leu esse artigo, sabe que tem escolha.

Passado eterno ou presente pulsante?


Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 3 de abril de 2015.

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