Depois da felicidade, a tristeza

Luciene Godoy //

Quem tem medo de ser feliz? “Ninguém”, responderão, “todo mundo almeja a tal felicidade”.

Muitos afirmam que ela não existe, mas isso como estado imutável de bem-estar. Nessa eu também não acredito pelo simples fato de professar minha profunda crença na pulsação de todas as coisas. No movimento de vai e vem, de tenho e não tenho, de existe e não existe.

Quando ela, a desejada felicidade, acontece, o que normalmente ocorre com a gente? Se pegos de surpresa, até podemos embarcar meio que no susto, sem dar tempo de refugarmos, pelo racional de mil explicações ou qualquer outro mecanismo.

Porém, quando ela é pressentida – e essa é a mais perigosa -, se der, a gente estraga. Se houver tempo, a gente corre dela. Perigo à vista.

Já que somos seres inteligentes, não fugimos de coisa boa, não é mesmo? Claro.Fugimos da felicidade é quando ela é vislumbrada como o começo da desgraça – depois dela o sofrimento será maior ainda.

Depois da farra do carnaval, depois da festa ou da viagem, parece que o mundo perde a cor. Dá um banzo.

Questiono sempre. Será que a vida é assim mesmo ou é assim que a temos vivido até agora?

Há uma passagem para ser feita na pulsação das diferentes posições que tomamos ao longo de nossos dias: preparamos uma viagem maravilhosa, vivemos tal viagem, voltamos dela e retomamos nossa vida cotidiana agora com mais uma “maravilhosa viagem” dentro de nós mesmos numa vida mais rica para sempre. Mas por que a tristeza depois de grandes alegrias?

Há uma química, sem dúvida. Química corporal a ser administrada, como é o caso da TPM. Que existe a mudança hormonal no corpo, é fato, mas a maneira como ela é percebida é que faz toda diferença. Se estiver no meio de uma vida que tem margens para acolher a dificuldade, ela não tomará proporções de grande incômodo. Será apenas uma pulsação, uma variação, como acontece na música.

Nossa vida é música que toca em harmonias diferentes, em tons, sons, silêncios que nos dão algumas das maiores delícias em nossa existência. Por que não seria também deliciosamente surpreendente a pulsação de cada dia? Temos o maior prazer no novo, no inesperado, admitamos. O pão nosso de cada dia é a pulsação, são as variações.

Não ficaremos para sempre no mesmo estado de espírito. Devemos vivê-los na sequência em que se apresentam, podendo dar diferentes respostas.

Será que ainda tem quem se sente culpado de estar feliz? Parece coisa da Idade Média. Medo do fogo do inferno?

Claro que não. Os medos são outros hoje, mas ainda se tem medo de pagar caro por estar feliz. Tem os olhares de reprovação, de “tira o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

E a famosa frase “post coitum omne animal triste est” (depois do coito o homem é um animal triste)? Que horror! Mas parece que muita gente acredita nisso, que muita gente vive isso. Depois do amor, no que poderia ser um imenso relaxamento de corpo e alma, fica uma tristeza fazia. O que seria isso? Culpa, sentimento de que fez algo errado ou simples incapacidade de administrar, de gerir suas emoções, sua química dos altos e baixos?

Somos seres eletroquímicos, temos um corpo com uma química que é determinada pelo modo que interpretamos cada fato, cada objeto. Se digo para mim mesmo que o ocorrido foi lamentável, uma tristeza toma conta de meu corpo; se, ao contrário, digo que foi uma linda resposta, meu corpo se inunda de uma química de bem-estar.

A interpretação é o que vai determinar que tipo de química você terá correndo em suas veias e inundando seu corpo de angústia e de tensão ou de tranquilidade, alegria e energia.

Somos responsáveis pela interpretação que damos e é ela que deflagra as sensações corporais, que são químicas, agradáveis e desagradáveis.

Bom saber que até isso é a gente que escolhe.


Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 20 de fevereiro de 2015.

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