Medo de aprender?

Será que existe tal coisa, medo de aprender? Será que não seria medo de sofrer, de adoecer, de se arrepender, ou qualquer outro coisa do gênero?

Ninguém tem medo de aprender, não. Seria aceitável dizer que tem muita gente com preguiça de aprender ou que não tem “força de vontade e disciplina” para o “esforço” exigido para a atividade da aprendizagem.

Coloco essas palavras entre aspas porque tenho dúvidas sobre elas. Coisas prazerosas não nos exigem o esforço da disciplina, a gente faz porque gosta, porque  está tendo um ganho de prazer.

E aprender, por acaso, não dá prazer? O prazer divertido da descoberta?

A visada do psiquiatra e psicanalista Guy Rosolato, que teorizou o que chamou de “relação com o desconhecido” nos permite dizer que não é bem assim. Ele afirma que as aprendizagens, assim como todas as atividades exploratórias e criativas – veja bem que se tratam de incursões em um mundo desconhecido –, só podem acontecer se enfrentarmos a angústia que dá o medo do desconhecido.

Há um medo central, uma angústia deflagrada pelo sinal de perigo que começa a soar em todo o nosso ser quando começamos a dar os primeiros passos em território novo, portanto, desconhecido. Para aprender é preciso dar um passo adiante no… desconhecido. Que pode ser bom ou ruim. Que podemos ou não gostar de saber.

Nesse caso, imaginamos, é melhor ficar quieto, parado e não correr riscos. Vamos ficando com o que já conhecemos e a vida fica mais segura – e mais limitada. Antes um pássaro na mão do que milhões voando à sua volta, ao alcance de um fechar de mãos sobre a presa disponível nos livros, nas telas, nas conversas.

Corremos do perigo se aprender, por exemplo, assistindo aos noticiários que reportam as mesmas tragédias, só mudam os lugares e os nomes dos desafortunados. Corremos do perigo de aprender tendo aquelas conversas conhecidas e repetidas que fazem com que saiamos tanto de um cumprimento de alguns segundos como de um papo mais longo com uma sensação de vazio. Vazio, mas garantido. Nenhum vexame. Tudo nos conformes.

Pois é, o ato de conhecer, de querer saber, tem um fundo emocional também.Querer saber, querer descobrir e querer inventar, em outras palavras, querer ter um encontro com o não sabido, provoca um medo a ser ultrapassado antes que possamos pegar o fruto gostoso da árvore do conhecimento e da descoberta.

Que tal sairmos das explicações já tão batidas de que quando a gente tem que aprender o que os outros querem a diversão perde a graça? Ou que aprender o que é só repetição de informações que não nos interessam e que não tem aplicabilidade em nossas vidas é desanimador? Fato. Disso a gente já sabe. Mas “medo de aprender”  é mais estranho, e parece que pode ser o maior inimigo do risco, do salto no escuro que representa entrar num território novo.

Ganhos da ousadia?

Uma vida muiiito mais divertida! Mais cheia de aventuras, de surpresas e de descobertas. Mais ameaçada, mais perigosa? Sim, mas não menos do que as vidas-repetidas.

Os perigos existem para quem está vivo. E não adianta se fingir de morto para escapar. Isso é coisa de bicho do mato para escapar de um predador momentâneo. Não se escapa da morte se fingindo de morto; se escapa da vida, isso sim. Mas para quem escolhe permanecer sempre quietinho, não se arriscando para não ser destruído, será que funciona?

Morrer, morreremos de qualquer forma. Que morramos tendo vivido e não tendo passado nossos anos esticadinhos e garantidinhos, fazendo do nosso corpo o caixão de uma alma que queria se mexer e viver.

Então o que está por trás do medo de aprender é no fundo o medo de mudar?

É.

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