O homem é mesmo o lobo do homem?

“Homo homini lúpus”. O filósofo inglês Thomas Hobbes  popularizou essa expressão ao refletir sobre a possibilidade de sermos livres quando somos obrigados a viver numa sociedade em que a lei é determinada por outros.

Freud, no mesmo rumo, se  interrogou acerca do inconsciente que nos governa e, desta forma, sobre como podemos ser livres se nosso mundo interno desconhecido  nos impõe o que não desejamos enquanto o mundo externo também.

Por isso, numa “dedução lógica”, pois a nossa impressão é essa, costumamos afirmar junto com Sartre que “O inferno são os outros”. Os “outros” do mundo externo e os “outros” do mundo interno aos quais não reconhecemos e assim são pressentidos como estranhos a nós.

Temos a plena certeza de que são os “outros” que nos fazem sofrer, que nos causam dano, nos deixam confusos. Todo mal vem de fora, isso é certo. Sem a menor dúvida.

Então, o mal deve ser contra-atacado. Precisamos destruir a causa de nosso mal-estar. Fim ao inimigo. Fim ao aprisionamento e a quem nos aprisiona. Temos direito à liberdade. Vamos conquistá-la. Vamos agarrá-la.

Como? Acabando com o que nos impede de alcançá-la, é claro. Deixando o outro sem palavras, intimidando-o com o nosso conhecimento. Humilhando-o para que fique quieto em seu canto e não nos ameace.

Mostrando o nosso poder de compra, de feitos, de conquistas para afundar o outro numa pungente vergonha de si mesmo.

Paralisemos  o inimigo. Neutralizemo-lo e o impedimento para sua liberdade-felicidade acabará.

Acabarão também as pessoas ao seu redor, é claro.

E aí você pode ficar como o personagem central do romance O Grande Gatsby, dando festas monumentais em que você nem conhece os convidados que usufruem das riquezas que você ostenta.

Isso para os ricos. Para os que têm menos, existem outras armas para manter o inimigo distante, embora, bem saibamos, há mais “união” entre os que precisam, os que necessitam seja lá do que for. Eles se juntam e se ajudam.

Pena daqueles que, por acharem que têm, não percebem que todos necessitamos sempre e de muitas coisas. Mas isso é só uma pausa. Prossigamos com o extermínio ao inimigo que nos impede de ser feliz.

Ah! Vamos parar no momento em que ficarmos sozinhos porque “detonamos”  com todos.

Impasse: sozinho é ruim e com o outro é mal-estar. Dá para ir além do impasse e achar outra forma de coexistir entre os humanos?

Sim, se sentirmos dentro de nossa pele quem somos mesmo quando não entendemos. Se pudermos nos dar conta de que o que fazemos, mesmo que oriundo de nosso inconsciente, vindo do “não-sabido” de dentro de nós, a nós pertence. Que faz parte de nós desde o momento em que entrou.

Se é bom ou ruim, cabe a nós reconhecê-lo e dar-lhe um destino – e não o destino de dizer que aquilo que  não reconhecemos pertence ao outro.

O “homem-lobo” (o outro) pode deixar de ser uma ameaça ao “homem-cordeiro” (você)… Ops! Quem é quem mesmo? Às vezes as coisas se misturam, mas prossigamos…

Na verdade, as perguntas a serem feitas são: “Quando deixaremos de ser os lobos de nós mesmos?”  Quando pararemos de enxergar no outro o nosso incômodo?

Quando o outro deixar de ser nossa sombra ameaçadora, o espelho no qual nos olhamos, nos refletimos e pedimos: “Espelho, espelho meu, diga-me logo quem sou eu”. Quando conseguirmos começar a nos responsabilizar sempre pelo que nos acontece. Não uma responsabilidade obediente das regras, mas a responsabilidade-potência. A força de assumir o concerto mesmo que a autoria do estrabo não seja nossa.  A vida é!

Quando a posição de vítima for peça de museu em nossa vida, o “lobo-outro” desaparecerá. Pois quem faz o lobo, quem dá consistência ao lobo, é a vítima.

Vítima do “lobo-si-mesmo”.

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  1. Maria Helena Ferreira

    Luciene, Espelho Meu, diga-me quem sou eu?

  2. Henrique

    Seus textos são sempre uma surpresa encantadora, um convite a um desfrute gratuito e terapêutico, um convite a uma vida adulta mas encantada como crianças. Obrigado sempre Luciene. Mais um bom motivo pela esperada sexta kkk.

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