Produzir seres humanos

 

Crianças são produzidas à imagem e semelhança (genética) de seus pais. Até aí tudo bem.

O que é mais estranho de se dizer é que o mesmo acontece com o seu modo de ser, que é produzido à imagem e semelhança do desejo de seus pais, das circunstâncias de seu nascimento e das ocorrências de sua infância.

Ninguém tem o mesmo pai e a mesma mãe. Ninguém tem exatamente as mesmas circunstâncias de vida. Nem irmãos gêmeos univitelinos (vindos de um mesmo óvulo).

Uma abelha já nasce com seu destino traçado, vai repetir a mesma dança, colher o pólen, exatamente como as gerações que a precederam.

Nós não temos instinto, mas temos algo tão forte quanto – a pulsão, de onde vem a palavra compulsão, que nos leva a repetir “aprendizados” adquiridos na infância com  a força e a insistência de um instinto.

Os esquimós Netsilik, do Alasca, usam abertamente a expressão “façonner les enfants”, que pode ser traduzida como construir de uma certa maneira, fazer de um certo modo, moldar, modelar, dar a forma às crianças. Eles falam claramente o que esperam delas quando crescerem: “Você vai ser um grande caçador, você vai correr muito rápido”, etc.

Como a avó descontente com o marido “bobo” que tinha e que “dava forma” ao seu netinho dizendo: “Você não vai ser bobo como seu avô a quem todos enganam, você vai ser esperto”. Bem, talvez essa avó tenha sido excessivamente forte em seu desejo. Fato é que o neto se tornou um espertalhão que passava as pessoas para trás. Coisa muito incomum na cultura Netsilik.

Em nossa cultura nós não nos damos conta de que “formatamos” nossas crianças, embora  expressões como “formamos nossas novas gerações” sejam usadas.

Formamos mesmo. Damos forma, damos cara e pensamento. Mesmo que não percebamos, estamos em todas as circunstâncias que passamos com a criança mostrando, por diversos meios, o que é o mundo e o que é a própria criança nesse mundo.

O que não nos damos conta é das mensagens que passamos. Aí sim, reside a questão. Pais que poupam os filhos e que não se dão conta de que estão passando uma mensagem de descrédito na potência desse filho.

Pais que não querem que os filhos sofram o que eles sofreram e que por isso dão à criança o direito de viver o que a vida lhes trouxer, de superar as suas próprias dores e não as dores dos pais.

Verificamos com frequência que uma geração que sucede à outra num maior ou menor espaço de tempo assume posições opostas às anteriores.

Sabemos que os anos 70 – dos hippies e da busca do desrespeito aos padrões aceitos – geraram filhos conservadores.

Tem também os que hoje são chamados de “a geração coxa de galinha”. São os que recebem o melhor do casal, numa referencia a um costume antigo de se oferecer a coxa à pessoa mais importante da mesa.

Pois é, as crianças, que ainda têm muito a conquistar, andam sendo tratadas como se tivessem conquistado o direito que deve estar adiante para que elas queiram ir atrás. Falamos de pais que se desrespeitam vivendo de migalhas e enchendo filhos de mimos desnecessários, não de saúde e educação, mas de caprichos infantis dos quais nossas crianças estão ficando inchadas, gordas por fora e por dentro. Sem mobilidade, sem desejo. Já entediadas ou raivosas quando não ganham a última versão de tal ou tal objeto de consumo.

Enfim, o gato vai fazer miau nasça aqui ou na China. O ser humano vai ser a produção, consciente e inconsciente de seus pais e de sua vida infantil. Falamos a língua aprendida nas relações que nos ensinaram a ser gente, na infância.

Por não sermos marcados pelo instinto, não nascemos para dar respostas padronizadas. Nascemos para sermos formados pelos outros seres humanos que nos cercam.

Ter consciência de que o ser humano é “produzido” pelo meio já ajuda bastante a não se esconder atrás da biologia.

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