Para que um novo tipo de responsabilidade?

            Sim, “para que “ e não “por que” um novo tipo de responsabilidade? O que vamos fazer com ela, para que nos servirá esse novo tipo de responsabilidade?

            Responsabilidade, palavrinha bem conhecida nossa, ligada à noção de dever e obrigação. Valor muito apreciado na sociedade porque denota um respeito ao outro, a um trato, um combinado, algo tido como sendo o que se deve fazer.

A fórmula é: responsabilidade = dever e obrigação.

Nós, psicanalistas do século 21, estamos às voltas com essa palavra, diria eu, o tempo todo.

Ela está sendo apontada como a resposta, por excelência, às grandes questões que nos desafiam na contemporaneidade.

O sociólogo Hans Jonas afirma que a tecnologia moderna – concebida para a felicidade humana, por buscar o submetimento e controle da natureza, a proteção maior para o homem contra doenças e ameaças diversas – se converteu, quem diria, em um ameaça letal. Nunca nenhuma ação humana chegou ao ponto tão alto de, paulatinamente ou em um segundo, poder destruir todo o planeta.

Estamos na condição do Rei Midas, que, tendo obtido o dom de transformar tudo o que tocava em ouro, não podia mais comer nem beber, pois também comida e bebida viravam uma riqueza que lhe era letal.

A Nova Responsabilidade faz-se necessária exatamente pelo poder que hoje temos. Ela se firma no fato de nos sabermos e nos sentirmos autores. Grandes autores? Não, autores de pequenas coisas.

Conheço uma pessoa como outra qualquer que, com a perda da mãe, resolveu plantar árvores nas imediações de sua casa e pelas ruas adjacentes em homenagem a ela.  Trinta anos depois, voltou para visitar a cidade natal e teve o imenso prazer de ver crianças brincando nas praças sob a sombra das lindas árvores. Casas se beneficiando da beleza e do frescor que brotava dos buracos das calçadas que décadas antes estavam vazios.

E aquela senhora que tinha ensinado sua empregada doméstica a administrar o seu salário e anos depois a reencontra dona de um restaurante, exultante de gratidão pela patroa-professora?

A Nova Responsabilidade não é obrigação, é potencia. É saber-se capaz, pegar e fazer. Não é dever, é opção. Não é sacrifício, é prazer. Não é simplesmente pensar no outro, é cuidar do mundo cuidando de você.

A Nova Responsabilidade dá prazer. O prazer do jogo, do tentar, do ganhar e do perder, para então aprender e jogar de novo.

Jogar o quê?

Jogar o xadrez que é a vida. A partida de futebol. Fazer e levar gols, mas não ficar dizendo que a bola não é sua e não dá pra jogar.

A Nova Responsabilidade não é com o outro, é com você, mas um você que, bem cuidado, bem amado, vai espalhar as mesmas sementes pelo mundo. Freud diz que só é capaz de amar quem foi amado. Se você é desses que acha que ninguém te amou, é bom lembrar que quem ama a gente é a gente mesmo. O outro pode se matar para nos provar amor e ainda ficaremos impávidos se dentro de nós não houver o mesmo material, no caso, o amor.

Pois é, temos hoje a Nova Responsabilidade porque temos uma autonomia nunca antes experimentada pelo ser humano. Desfrutamos de uma sociedade organizada horizontalmente, Cada vez menos alguém tem o poder de nos guiar ou coagir. Nossos dedinhos estão no celular, denunciamos, nos juntamos. Trocamos informações, nos defendemos.

A Nova Responsabilidade não é “Eu tenho que”, mas “eu quero, eu posso e escolho fazer, eu colho os bons e os maus frutos, eu sustento ou desisto, mas é comigo mesmo, não é com meu pai, nem com minha mãe, nem meu patrão ou minha namorada”.

Pra que serve?

Para viver bem num mundo de escolhas. Para degustar o que o que temos, não ficar buscando o culpado e cuidar bem de nossa casa global.

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