Irresponsável de mim

 

Andreia de Paula

Olhamos e não entendemos, prestamos atenção e não compreendemos. Assim vamos entendendo que existem e existirão muitas circunstâncias e situações que nunca serão compreendidas, que não têm explicação. Isso é o que a Clínica do Real nos apresenta, nos demonstra com tanta insistência.

Não existe mais aquele senhor sabe tudo que nos orienta e nos dá respostas que nos deixavam tranquilos. Muitos de nós também éramos muito felizes acreditando em qualquer resposta, qualquer resposta do senhor sabe tudo era tranquilizadora, apaziguadora. E agora ele não existe mais. Não é que ele tenha ido embora. Não, não é isso. Nós é que não temos como aceitar suas respostas prontas, as respostas padronizadas não nos servem mais.

Agora o médico, o terapeuta, o chefe, o pai nos dão uma informação ou uma ordem e nós vamos procurar nos informar sobre a veracidade, a procedência, se é a melhor opção. Nós podemos questionar, nós queremos questionar. Então nossas dúvidas acabaram?

Não, as nossas dúvidas não só não acabaram como aumentaram. Por mais que possamos escolher as respostas que melhor nos representem, nós também passamos a ter que nos responsabilizarmos pela consequência da nossa escolha.

Antes, era “ELE” quem respondia por nós. Só precisávamos perguntar. E se desse errado… Ufa, que alívio! “Tinha sido ‘ELE’ quem nos mandou fazer assim”. Não tínhamos nada a ver com isso. Éramos irresponsáveis. Totalmente irresponsáveis.

Com o passar do tempo, muitos de nós começamos a perceber que, apesar desse outro todo poderoso definir nossas escolhas, apesar de ele saber o que era melhor para nós, éramos nós que saíamos perdendo e prejudicados. Éramos nós os acusados de incompetentes, imprudentes, incapazes, mesmo quando dizíamos que não era nossa culpa.

Os malefícios das atitudes eram nossos.

Éramos nós que sofríamos as consequências e ainda tínhamos que ouvir que não bem assim que haviam nos dito, que não havíamos feito do jeitinho combinado. Enfim, as consequências sempre recaíam sobre as nossas costas ou sobre o nosso corpo inteiro. Por mais que esperneássemos, a responsabilidade era chamada para nós.

Assim, a lei do mal entendido era soberana. Enquanto todos brigávamos para ver de quem era a culpa, o tempo passava e não saímos do lugar. A tão sonhada promoção nunca chegava, o relacionamento amoroso era sempre ruim ou meia boca, as viagens de férias eram as piores, éramos multados no trânsito porque o guarda é incompetente e assim por diante.

O que então nos restou a fazer foi tomar a responsabilidade para nós mesmos. Correr os riscos de tomar a decisão que considerávamos a melhor ou correr o risco de acatar a sugestão ou ordem ou conselho de alguém e assumir as consequências por estas escolhas também. Restou-nos assumir a responsabilidade.

Agora somos por nós mesmos. É uma sensação de solidão. É preciso coragem. O grande Deus que resolvia tudo para nós deu lugar ao deus que há em cada um de nós. E nós que nos viremos com ele, que o defendamos.

Não temos mais com quem compartilhar nossas incompetências, e nem mais temos em quem jogar o lixo de nossas irresponsabilidades. Ninguém mais quer se sentir culpado.

Essa é uma nova maneira de viver: sustentando nossas escolhas. Sermos felizes porque nos responsabilizamos por nossos desejos. Responsabilizamo-nos por qualificar nossas escolhas e não nos colocarmos em fôrmas modeladas por qualquer um que saiba o que é melhor para nós. A fôrma mais adequada é aquela escolhida por nós e para nós mesmos.

A felicidade e o sucesso são de responsabilidade única e exclusiva de quem tem a coragem de se responsabilizar por suas próprias escolhas.

*Andreia de Paula é psicanalista e personal organizer.

 

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