A felicidade dá medo

Claro, ela é perigosa mesmo, portanto, “antes que o mal cresça, corte-lhe a cabeça”.

Estou pensando em escrever um manual que será muito útil: “Proteja-se dos perigos da felicidade”.

Além do manual, vou propor… aliás, proponho agora mesmo: uma nova nomenclatura para o supereu (ou superego): o SUBEU.

Já que o prefixo “super” quer dizer acima e esse “acima” quer dizer uma instância que está sobre o eu, regendo, mandando, cobrando, culpabilizando… e não menos, o que é terrível, enfraquecendo o “eu”, que se perde no meio de tanto dedo apontado: “Você fez errado”, ”Ainda não está bom”.

Supereu  não quer dizer superhomem, mas sim subhomem: um ser humano arcado pelo peso de exigências inalcançáveis. Demandas eternas de per  feição, que o faz se sentir sempre incapaz.

Incapaz de quê mesmo?

De chegar “lá”.

Lá onde?

Em um lugar onde não tenha mais cobranças inatingíveis, eternas.

Existe esse lugar?

Claro que sim. Mas só se você resgatar a sua vida das “garras” do supereu.

Somos imperfeitos, e com muito orgulho, porque essa é a nossa condição humana. Perfeição se espera só de Deus. Então para que sofrer quando não se consegue? Sabendo que fizemos o melhor já poderíamos nos dar por satisfeitos.

Que mais o supereu produz além do subeu, do subser humano que vive para as exigências de um “outro” parasitando dentro de si?

Produz – pasme – medo da felicidade, já que só a mereceríamos caso fôssemos aprovados no teste de perfeição! Ser feliz sendo falho é meio um pecado, não merecemos, dá medo do castigo.

Algo assim: “Pegar o que não é meu é pecado e posso receber um enorme castigo. Só posso fazer o que papai deixou, o que papai disse que era correto. Não sou lá tudo isso, então não posso levar o prêmio. Caso eu o faça, serei um ladrão”.

Se não for feliz, também não vou sofrer, por exemplo, o castigo de perder o objeto de minha felicidade.

O que fazer para não perder?

Basta não ter.

Basta jogar fora no lixo aquela pessoa maravilhosa que você acaba de conhecer ou, o que é melhor, até aquela que vive com você há muitos anos e que está lá enfiada no lixo – você a tira de vez em quando, disfarçadamente, olhando para os lados para conferir se alguém está vendo você feliz, curte um pouquinho, depois briga, maltrata, empurra e “guarda” para uso futuro na lata de lixo.

Aí você tira muitas fotos com os dentes escancarados, sorrindo e feliz da vida para disfarçar para o supereu uma “felicidade” consentida, contida, pequena, porque a grande, aquela na qual a gente joga todas as nossas fichas, essa não, essa é perigosa. Essa a gente corre o risco de perder.

A solução está na cara: para não perder no futuro eu perco no começo. É um boa conta, convenhamos.

Segundo as regras do subeu, é certo que vou ser castigado perdendo algo tããoo maravilhoso. É melhor não acostumar com tanta felicidade e jogá-la logo no lixo, antes de se apegar e começar a querer muito da vida.

Antes que eu tenha um grande sofrimento perdendo algo que quero muito, algo de que preciso e que é um outro, portanto do qual dependo, sim, é melhor eu ter pequenos sofrimentos a cada vez que a vida me oferece o presentinho que poderia ser um presentão.

Lógica fácil: antes que uma promessa de felicidade,vire presentão, eu a jogo no lixo.

Desta forma estou jogando só um presentinho.

Lógica falha: você está jogando fora o presentão que se anunciou e, por medo de perdê-lo, você acaba perdendo sempre.

O que é deveras de cortar o coração é o tanto de presentões vivendo juntos e se jogando no lixo por medo de “viver feliz para sempre”.

Felicidade é para ser sustentada e não jogada do lixo.

E como enfrentamos esse subeu que nos torna covardes diante das coisas grandes?

Dizendo para a gente mesmo: “Bicho papão não existe”.

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