Santo de Casa não faz milagre

E nem poderia fazer. Aceitar o destaque de um semelhante, de um igual, nos diminui muito. Já que aquele “de casa” milagreiro, tão diferente, poderia ser eu e não é, então não aceito que se sobressaia, que chegue mais longe de onde eu consegui chegar.

Fosse  ele de outras plagas, eu aceitaria seus feitos extraordinários – o talento, a sensibilidade, a inteligência… vá lá, o milagre, pois estar acima da mediocridade é sempre um milagre. Mas sendo um irmão, um conterrâneo, não: ou o extraordinário sou eu ou me nego terminantemente a aceitar que qualquer outro do meu mundo seja.

Nego o milagre – por mais irrefutável que seja. É uma questão de princípio.

Entre eu e o outro, eu sempre, só eu.

Mas, peraí, raciocine. Não foi você quem fez o milagre. Foi o outro.

E daí? Eu não aceito. Faço de conta que não vi. Nego as evidências. É uma questão de vida ou morte.

Vocês já notaram? Santo de casa, quando faz milagre, humilha os que não fizeram. Quem tem asas para voar, numa ninhada sem asas, diminui os cotós.

O cotó humilhado tem a sua força. E a sua revanche é negar o sucesso do igual. Nega as asas do conterrâneo.

Mais uma das burrices – leia-se: fixações – do narcisismo do ser humano. O cotó que vê o irmão, o da terra, voar, pode até ter a esperança de que dos seus cotos cresçam penas para ele também dar os seus voos. Não os do outro, mas os voos que quiser e puder dar.

Não é o fato de um igual voar que nos impede de fazer o mesmo. Arrisco até a dizer que todos temos asas, mas temos também medo de cair, medo das pedradas que poderão nos ferir – pedras essas que já derrubaram muitos pássaros-gente ao longo da história da humanidade.

Não nos arriscamos a voar pela covardia do que vão pensar dos nossos voos esquisitos, talvez não tão belos. Então, encolhemos nossas asas, que ficam parecendo cotocos e não são. Ou pior: pedimos a alguém para cortá-las incessantemente, ficando só com a corcova que nos aleija, e aí sim ficamos muito feios. E com um olhar que só vê feiura ao redor.

Gente que não desabrocha é infeliz e só vê as coisas feias da vida. Elas existem, é claro, mas há sempre o lado mais bonito de cada objeto, e pessoas sem asas não conseguem a posição favorável para vê-las. Porque as vemos de cima, quando voamos.

É… são muitos os que têm medo de voar.

Voar é se lançar nas correntes de ar instáveis, sem a solidez que se dissolve no ar.

Mas não se iludam. Não tem também solidez na terra, chacoalhada por terremotos, rumos perdidos… Não tem solidez na água, revolta por maremotos, tsunamis. A pouca, pouquíssima, solidez que há está dentro de nós, em nossas asas. Aquelas que por serem só nossas levamos para o túmulo.

Santo de casa não faz milagres… ave de casa não voa.

Voa sim, invejosos.

Voa sim, covardes.

Ah, se os covardes e invejosos descobrissem que eles também têm asas!

Aí, no planeta Terra, haveria revoada de andorinhas-humanas e tuiuiús-gente se confraternizariam nos ninhos e nos ares. Águias com braços e pernas dariam lindos voos rasgando os céus.

Todo tipo de voo… um verdadeiro milagre.

Se os covardes se lançassem ao voo, aí e só aí os milagres do santo de casa seriam reconhecidos.

Se os invejosos descobrissem e exercitassem suas próprias asas, parariam de andar de asa em asa, com o tesourão na mão, podando as penas nascentes, incomodativas e ameaçadoras dos outros.

Voar é preciso, viver não é preciso. Voar é inventar a vida.

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Um Comentário

  1. Maria Helena Ferreira

    Nossa Luciene que lindo! Como é verdadeiro tudo que você disse. Obrigada pelo aprendizado também.

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