Para que mundo criamos nossos filhos?

A frase é conhecida e repetida de boca cheia por pais orgulhosos em demonstrar que não fazem parte do conjunto dos pais egoístas que criam os filhos para si.

Bem, já que os criamos para o mundo, para qual mundo mesmo?

Não se arrepie. A pergunta tem cabimento.

Antes, os pais criavam seus filhos para o mundo do século 20, o mundo edípico – aquele com lugares marcados, com o certo e errado, com a segurança do adulto experiente que “sabia o que era melhor para os mais jovens”. Eles tinham que criá-los para entrar no conjunto dos iguais.

Esse mundo gerava dois tipos de pais.

Os primeiros ficavam ainda no lugar dos que têm que saber, engessando seus filhos em moldes sociais e deixando-os dependentes. São filhos obedientes e tristemente perdidos de si mesmos. Os bons meninos obedientes que nem chegam a saber do que realmente gostam para além de agradar aos outros.

Os pais modelo século 20 geravam – e geram – também rebeldes sem causa. Eles se revoltam contra o saber paterno, mas não sabem o que pôr no lugar. Geralmente se dão mal porque não inventam, só aprenderam a obediência.

Os pais culpados são o segundo tipo. Eles sentem um vago sentimento de que estão fazendo a coisa errada porque num mundo de ideais estamos sempre fazendo algo errado. Esses pais também geram filhos inseguros, porque protegidos pelo olhar solícito e culpado dos genitores, que sentem o desconforto de parecer que estão errando.

Hoje já vejo pais que criam seus filhos para a autonomia.

Sorriem de prazer ao ver os pequenos inventarem soluções para seus pequenos problemas e não posam de eternos mestres: “mamãe/papai-sabe-o-que-é-bom-pra-você”.

Seus filhos não são crianças perdidas, mas crianças que vão construindo um caminho de descobrir o que querem, mostrando que é possível estar no mundo de forma nem obediente e nem rebelde.

Seres que respeitam suas escolhas são necessariamente felizes, alegres. Seres obedientes e do contra estão, no fundo, contra o semelhante que os aleijou e fez mal. Esses não têm razão para ter ética, para amar o outro que lhe fez e faz sofrer.

O mundo não edípico não tem “pré-conceito” do que é certo ou errado a priori porque isso depende de muitas circunstâncias. O que foi uma boa escolha numa situação pode ser péssima numa ocasião parecida, mas que, por um pequeno detalhe, fica muito diferente.

É o savoir-y-faire – saber fazer a cada momento – que vai funcionar num mundo que é um canteiro de obras das relações. Num mundo de construção e de viver momento a momento o que se tem e que se pode mudar.

Isso pode assustar ou ser prazeroso.

Não há mais razão para se agarrar numa bússola quebrada que não aponta para o norte que não existe mais. Vivemos em rede, em trocas, em parcerias, em amizade.

Os pais do século 21 vão sabendo o que é bom a cada momento, não são os guardiões  do saber para os filhos. Eles criam filhos que, por terem pais felizes, seguindo o caminho que escolheram, são referências para que achem os seus.

A regra “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não vale no mundo pós-edípico, que não é um mundo de “blá blá blá”. É um mundo de “mão na massa”, um mundo de causa e consequência, de fazer e colher rapidamente os frutos plantados.

Não estamos num mundo no qual dá pra falar e não fazer porque o explicar para justificar já não tem o mesmo peso.

O que tem valor hoje é o que se vive e não o que se fala. E filho que aprende vivendo a vida que os pais vivem crescem vigorosos para suas próprias escolhas e suas próprias construções autônomas.

Pais inconsistentes, que falam uma coisa e vivem outra serão cartas fora do baralho no século 21.

Se quiserem se assustar, se assustem. Mas façam alguma coisa para mudar porque o mundo já mudou.

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