O casamento por amor

Que os franceses chamam lindamente de “marriage d’amour” – casamento de amor.

O “nosso” casamento por amor enfatiza a escolha (por amor ou por interesse, por covardia, por sujeição, etc) e o francês o conteúdo (cheio de amor e não de obrigação, de compromisso, etc).

O casamento por amor nem sempre existiu. Afirmativa que nos parece difícil até de imaginar hoje. Para relembrarmos basta olharmos um pouco para trás.

Para nós de meia idade, provavelmente a maior parte de nossas mães tenham escolhido seus maridos. Quanto a nossas avós algumas, talvez não muitas.

Voltando mais um pouco, vamos ver quando isso começou.

Na Idade Média as pequenas comunidades tinham um poder sem limites sobre cada membro do grupo. Por isso os casamentos eram decididos em relação às necessidades dos mesmos. Para associar tais famílias ou reunir tais parcelas de terras.

Para sobreviver com seus interesses acima de tudo a comunidade se apropriava do poder de escolher pelas pessoas porque o fito era manter a existência da dita comunidade.

A cada um era dada a tarefa de vigiar o vizinho mais próximo para ver se ele não estava saindo da linha e fazendo algo fora do interesse grupal.

Parece um início plausível da fofoca sistemática que perpassa até hoje a vida de quem é infeliz por não fazer o que quer e tem inveja e ódio de quem consegue.

Reflexão a parte, voltemos ao tema com um exemplo arrepiante: o marido traído pela esposa a qual não soube “segurar” era arrancado de sua casa sob tremendo barulho da multidão enlouquecida que, batendo caixas e gritando, o colocavam em cima de um burro com o rosto virado para trás jogando sobre ele todo tipo de comida podre e fétida.

Ia o triste cortejo espancando e escarnecendo o pobre diabo até os limites da cidade retornando à casa do dito cujo, deixando-o de volta coberto de vergonha e escárnio. Era um exemplo inesquecível para quem afrouxasse a vigilância e obediência.

O tempo passou, algumas coisas mudaram, outras nem tanto.

Há quarenta anos atrás, os pais vigiavam ferozmente a virgindade das filhas (não se escandalizem os mais novos – acreditem – isso acontecia bem aqui). A mãe vigiava para mostrar serviço para o pai, pois, caso a tragédia acontecesse, ele arrasava com a mãe descuidada, enquanto a comunidade arrasava com o pai que se tornava um fracassado social. Dizia-se “A filha do seu Mário se perdeu, ele falhou.” O Pai dizia para a mãe “A sua filha se perdeu, você falhou”.

E a filha? A que quis usar o seu corpo como desejava? Virava lixo… e não tinha recuperação não. Esse horror não está muito longe.

Hoje graças ao fato das mulheres terem, depois da década de 50, começado a se sustentar do seu próprio trabalho, passaram a ser respeitadas cada vez mais. A sociedade nova precisava de consumidores com dinheiro e não mais de pessoas obedientes a projetos comuns.

Esse tipo de mudança, dentre outras, é que pode nos trazer históricamente onde nos encontramos hoje: escolhendo livremente nossos parceiros.

Podemos ter namoridos, esposas gostosas que não deixam motivos para se pular a cerca por não dar conta de se juntar a mãe dos nossos filhos e a amante.

Podemos nos dar ao luxo de sermos amigos de nossos cônjuges porque não dependemos mais do que eles fazem para sermos avaliados pelos outros.

Estamos num mundo em que cada um de nós responde pelo que nos acontece. Não é mais “Olha só o que o filho, a mulher, o marido, a filha de fulano fez”. Agora é: “o/a fulano/a fez, bom ou ruim pra ele/a”.

Tem muito menos gente infeliz no mundo para nos vigiar em nossa felicidade.

O casamento de amor e por amor é uma das grandes construções da história da humanidade.

Que bom! E por isso mesmo, feliz dia dos namorados que a história está lhe dando.

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