Ah, se eu tivesse!

Algumas pessoas têm me pedido para escrever sobre histórias reais, dar exemplos vividos, pois com eles a impressão fica mais forte e a gente não se esquece facilmente.

Pois bem, aí vai uma história verdadeira para a gente não esquecer: conheci, há anos atrás, um cara e sua namorada.

Jamais vi mulher mais apaixonada pelo seu homem. Ela passava da conta (no bom sentido), estava muito além de corriqueiros amores, de gestos pequenos, de atos comuns.

A começar pelo nome que o chamava: “meu bem” ou “meu amor” era pouco. Ela o chamava por uma expressão ao mesmo tempo incomum, forte e carinhosa. Ela o chamava de “o vida”. Era mais ou menos assim: “O vida está viajando” ou “O vida vem almoçar comigo”. Era lindo de se ver.

Bem, não bastasse isso, a tal moça também era muito bonita, competentemente independente, bom caráter (admirada e amada pelas amigas) e ótima dona de casa.

Quanto ao rapaz: simpático, batalhador e sensível – veja só. Tinha tido um casamento desastroso com uma mulher com os piores predicados – como ele mesmo dizia em alguns momentos. Ela era péssima mãe, dona de casa relapsa – sendo essa sua profissão, já que não trabalhava fora. Gastava o que tinha e o que não tinha, relegando ao marido dívidas eternas. Por fim, para completar a lista de infortúnios, ela o traiu de forma escancarada, deixando o pobre homem em situação vexatória de exposição pública. Dele, ela só tirou. Não tinha nada para dar, parece.

Para a minha surpresa, ao conviver mais de perto com o camarada, notei que ele vinha sempre com uma conversa sobre a “ex”. Muitas vezes se confundia e a chamava de “minha mulher” e até por um apelido carinhoso que usava com ela quando casados.

Pirei!

Pensei: “O que esse homem tanto fala nessa outra mulher, tendo essa namorada e companheira extraordinária e que é o que ele diz aos quatro ventos tudo o que quer de uma mulher?”

Até que um dia a coisa chegou ao seu ápice.

Estávamos um grupo comendo na casa de um casal amigo aquela comidinha caseira, fresquinha, servida na hora, quando o tal, com os olhos sonhadores, vem com a seguinte frase: “Ah! Fico imaginando ter uma mulher carinhosa, que fosse louca por mim e me fizesse um arroz branquinho com uma pimentinha de cheiro”.

Pirei de novo!

Só muitos anos depois, com o estudo da psicanálise, pude ter outra apreensão do acontecido.

É que o ser humano tem a tendência de se ligar mais ao que não tem, à frustração e à decepção. É muito difícil ver a si mesmo e reconhecer o que se tem e é exatamente por isso que não se tem.

Existe uma estruturação psíquica em nós que Freud chamava de pulsão de morte e que nos leva a nos apegarmos à perda. O que também expressa bem o fato é o chamado “gozo da insatisfação”.

Existe o medo de admitir que se tem, e então correr o risco de se perder o objeto amado. Aí a dor seria maior, por isso a lógica empobrecedora que passa a operar é: ao invés de se perder, opta-se por não ter mesmo tendo (ou seja: não ver que tem) para não sofrer a dor da perda.

Ou também o disfarce funciona com o sujeito eternamente correndo atrás do novo, do mais ou do melhor sem conseguir admitir que já tem o que procurava.

O que estou dizendo parece impensável não é mesmo? Será que alguém chega a ponto de dizer que tem o que procurava? Que chegou “lá”?

Podemos nos sentir satisfeitos sem estarmos acomodados. Podemos nos sentir tendo, porém sem perder o desejo de continuar a querer.

Trata-se de poder ver o que se conquistou e degustá-lo. Há um impedimento na formação do psiquismo humano que nos dificulta o acesso a esse usufruto do presente, a essa “atualização” de nosso programa interno de computador.

Mas acredite: seria mais frutífero se o “Ah, se eu tivesse!” fosse substituído pelo “Ah, se eu enxergasse o que tenho!”

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