Tratado sobre a jabuticaba

Nós goianos temos uma relação muito particular com a jabuticaba.

E por que não? Os japoneses têm a sua florada das cerejeiras e nós temos o nosso “tempo de jabuticaba”, que, a cada ano, esperamos com água na boca.

Aí, uma estranha febre toma conta dos goianos. Aqueles do “pé rachado” iniciam a sua caça de onde já tem jabuticaba madura.

Quando um goiano, mas goiano mesmo,vai se aproximando de um pé de jabuticabas maduras, os olhos se enchem visivelmente, ficam até maiores do que as frutas que, muitas vezes, e com razão, são usadas para falar de um olhar negro, profundo e brilhante.

Lindo, não é? “Olhos de jabuticaba.”

Comer jabuticaba no pé à moda goiana é ser tomado por um desejo de aventura, de descoberta das maiores e mais doces. É ir se perdendo entre os galhos, que às vezes nos arranham e nem notamos, quando, de repente, entre curvas e forquilhas, localizamos uma “butela” – quer dizer, uma fruta grande. Ao ser alcançada pelos nossos dedos sôfregos como os de um jogador que sabe que vai ganhar, vem terminar espocando entre os nossos dentes, soltando seu doce suco que cobre a língua de puro prazer.

Gente, isso é muiiiiito bom! E isso é muiiito goiano.

Porém, nem tudo são flores. Quando, por alguma inabilidade, deixamos cair uma “butelona”, o coração chora como se aquela fosse a última jabuticaba do mundo. Mas logo os olhos tristes para baixo se erguem e o brilho cheio de desejo do garimpeiro atrás da pedra grande está estampado no rosto de novo. E o sorriso se abre assim que a próxima “bilocona” explode na boca.

Ficamos tristes também quando, tomados pela emoção, pisamos nas que estão no chão, que não é de estrelas, mas um chão de olhos negros que nos olham. E ao pisarmos neles, sentido que espirram sob o peso de um pé pagão, a culpa nos pega feio.

É uma relação complexa essa do goiano com a jabuticaba…

Os indianos dizem que os espíritos do bem habitam a sombra das mangueiras. Eu desconfio que os espíritos dos nossos ancestrais da roça habitam os galhos da jabuticabeira.

Verdade é que aqui em Goiás comer jabuticaba no pé tem gosto de infância, e gosto de infância é uma deliciosa iguaria que não se deve abandonar por nada na vida. Tenho um amigo que diz que desconfia de quem tem vergonha de suas próprias origens. Eu também, porque são pessoas infelizes que não gostam do que são e de sua história. Ficam correndo atrás do estrangeiro como se lá longe tudo fosse melhor do que o que ele tem por aqui.

Para mim gosto de infância traz vida. Acho que cura até câncer!

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Um Comentário

  1. Luciana Hayashi

    Luciene, obrigada pelo presente lindo que nos ofere com este artigo!
    Seu texto me enche o coração e a alma neste momento em que enfrento um processo de luto. Em sua poesia pude reencontrar com aspectos importantes da pessoa amada que se foi e, ao mesmo tempo, acreditar que seus desejos, histórias e feitos permanecem entre nós, quem sabe entre galhos e forquilhas de jabuticabeiras.
    Obrigada, mais uma vez!
    Luciana

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