A Psicanálise do Século XXI

Autorretrato com Chapéu de Palha (Vincent Van Gogh, 1888)

Luciene Godoy

Alguém pode dizer: “Ora pois, então a psicanálise mudou? Pensei que fosse só uma”.

É, as coisas não ficam sempre no mesmo lugar. O mundo caminha.

O sujeito freudiano vivia num momento histórico que chamamos de “A era da proibição”. Hoje o mundo vive num que é chamado de “A era do gozo”.

Um é o oposto do outro e, por isso mesmo, Lacan, ao ir percebendo o que já se anunciava, escreveu em 1969-70 o seu seminário “O Avesso da Psicanálise” preparando a psicanálise para um mundo que estava se tornando o oposto do mundo freudiano.

Depois de sua “volta a Freud”, ele ruma para onde o mundo está rumando. Para dar conta de novas respostas a novas questões de um mundo se revirando. Um mundo onde há um comando para que todos gozem de tudo (sexo, objetos, informações…) ininterruptamente.

Você pode tudo: agarre, consuma, experimente! As pessoas são empurradas a “necessitar” do que há para ser comprado, adquirido, vivido.

Do “você não pode nada”, agora é “você tem que ter tudo”. E se não entrar na onda, sente-se mal, excluído do parque de diversões onde todos brincam sem parar.

Não estamos tão tocados pelos valores antes sustentados, que se mostraram vazios. Há um investimento no presente, no uso pragmático de qualquer objeto.

Não se vive pensando em gozar depois. Até mesmo as religiões não propõem mais “sofra agora e goze depois”, mas “seja feliz aqui também porque Deus assim quer”.

O que atrai o ser humano hoje é a possibilidade de viver bem aqui e agora. Ótimo! Mas isso não será alcançado de maneira infantil, ingênua, na obediência cega aos meios de comunicação.

É preciso relativizar os excessos propostos, e, às vezes impostos. É preciso se dar ao trabalho de saber de você. Do que realmente gosta e quer. Não há receita igual de felicidade para todos, prêt-a-porter, como se as “famílias Dorianas” fossem possíveis para todos, basta comprar margarina.

Mas também é prazerosa a construção desse saber de si, porque sem isso não há como escolher o que lhe trará benefícios nessa oferta descomunal de objetos, modos de pensar e viver.

Então como é que a psicanálise do séc XXI se propõe a lidar com o que se apresenta?

Não mais só explicando (Freud explica!), mas implicando. Implicando o sujeito nas suas escolhas, dizendo que é com ele mesmo já que os ideais, “se seguir o que o meu pai disse vou me dar bem”, não nos sustentam mais. Estamos num mundo onde tudo é volátil, nada nos garante, a não ser saber de nós mesmos, do nosso desejo, o suficiente para enfrentar os riscos das escolhas e das construções.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 1º de setembro de 2011.

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