Casaram-se e foram felizes para sempre

Latin Celebration (Romero Britto)

Luciene Godoy

Frase que finaliza os contos de fada.

Interessante… com a mesma frase iniciam-se os casamentos.

Se os casamentos iniciam-se no momento que se diz “e foram felizes para sempre”, está dito que após nos casarmos … só felicidade.

As novelas também, já notaram? Terminam com todo mundo casando. Depois não tem mais nada, igualzinho aos contos de fada.

Por que será? Se todos sabemos que não se é feliz para sempre depois de casado, talvez muito pelo contrário.

Parece que se cria uma crença de algo que foi ganho, alcançado a partir daquele ato. Casou levou! E olha que não é pouca coisa! É “só” a felicidade que se leva de presente e, acreditem, para a vida toda, para sempre, sempre…

Não estou fazendo piada! Do jeito que falo parece tão ingênuo. Vão dizer que ninguém se casa sonhando tanto e que as pessoas se casam com o “pé no chão”. Sabendo que não vai ser fácil.

Discordo totalmente.
Primeiro, se as pessoas não fossem ainda tão pegas pela ilusão, as novelas não continuariam a desenvolver o tema oferecendo a mesma versão. Se o fazem é porque todo mundo quer mais é ver a historinha se repetir para poder sonhar e desejar o mesmo. Já viu as produções luxuosas dos casamentos – e no plural mesmo porque muitas novelas terminam não só com um, mas vários casamentos ao mesmo tempo? Felicidade para todos para sempre!

Segundo, essas mesmas novelas não nos oferecem exemplos do depois do casamento. Continuam o oferecer o ideal do casamento “sem depois”.

Bem, então falemos nós do depois.

Para mim o depois é o começo da construção. Da construção de, não se irritem pelo trocadilho, um casamento feliz. Por que não?

Gosto mesmo de chamar o casamento do começo de um outro namoro. Um namoro mais difícil de existir dentro do casamento do que foi o de fora, mas igualmente possível. Um namoro com outros desafios como o da proximidade excessiva, dos desafios da vida cotidiana sem as tréguas do namoro de antes, quando cada um se afastava para sua própria vida e as coisas “esfriavam”, a saudade voltava e era bom ter o outro de novo.

Mas, vão me dizer que esse processo não é possível no casamento. E eu novamente discordo. Digo que o que vai mudar no casamento é a necessidade de separação, já que a presença é muito grande. Separarmo-nos na nossa maneira de ser única. Senão o outro começa a pesar demais, exigir, corrigir, criticar, desaprovar.

O namoro pode continuar se conseguirmos ser juntos o que seríamos estando sozinhos, nas realizações, no modo de comportar e ser. Sem mutilações para se conseguir estar juntos.

Desta forma continuaríamos a ter a riqueza de ter a nós mesmos e mais a de uma presença querida em nossas vidas.

É difícil mas não tanto que se tenha que evitar falar sobre o “depois do casamento”, transformando o seu começo em término.

Podemos fazer do “e foram felizes para sempre” um “e continuam a se namorar e respeitar dando conta de manter as distancias e o seu amor por si mesmo”. Fazendo do casamento uma combinação feliz.


Artigo originalmente publicado em 23 de maio de 2011 no jornal O Popular (encarte “Noivas”).

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