De onde viemos?

 

Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem (Salvador Dali)

Luciene Godoy

 

Não somos filhos de chocadeira! Constatação óbvia… De onde viemos? – a famosa pergunta filosófica. O que nos faz ser como somos? Gostar do que gostamos? Sofrer de uma determinada maneira, por determinados motivos e não por outros que, no entanto, são os que fazem outros sofrerem? O que determina, afinal, a nossa mais absoluta singularidade?

Grandes perguntas… e difíceis. Estamos sempre tentando responde-las um pouco mais, um pouco melhor, quem sabe. Começarei falando deste grupo que chamamos família. Podemos falar dela como o pilar de nossa sociedade ou como uma instituição falida. Como um lugar de crescimento e proteção contra o mundo ou como o pior dos mundos, uma prisão alienante e torturadora. Acredito que seja de tudo um pouco. É preciso discriminar.

Em primeiro lugar, nascer em um determinado grupo nos dá um nome e um lugar no mundo, nos dá a primeira ordem na qual vemos esse mundo e damos sentido à vida.  O paradoxo é que temos que ultrapassar essa primeira visão herdada pelo nascimento e construirmos, cada um de nós um lugar só seu, e, a partir desse lugar se relacionar com a vida. Nisso consiste a novela, o mito pessoal de cada um. É conflitante deixar quem nos deu a vida, mas como vivê-la para outro ou de acordo com o desejo de outro? Se não for assim, minha vida não é minha!

Estou dizendo que existe um tempo de ser cuidado, de pertencer e um tempo de se separar, de abrir seus próprios caminhos. Como está dito nas palavras de  Chuang-Tzu:       “Há um tempo de juntar /  E um tempo de separar /  Aquele que entender  /  Este curso dos acontecimentos  / Toma cada novo estado  /  Em sua devida hora.”O que poderá significar que este novo lugar terá que ser construído na solidão?

Ai, ai, ai, lá vem coisa ruim, porque solidão, todo mundo sabe, é coisa muito ruim, não é?  Sinto muito discordar. A capacidade de ficar e gostar de ficar só é, espero que o descubram, uma das melhores coisas da vida. Na nossa infância funcionamos necessitando do outro o tempo todo. É a própria estrutura do ser infantil. Criança não pode e não gosta de ficar só. Esse é um vinho para se aprender a degustar com  o amadurecimento!

A solidão pode ser pensada de maneira tão diferente da que nos é ensinada! Ela pode ser vista como o nosso novo abrigo, o espaço que construímos e, só assim, teremos o que mostrar e compartilhar com o outro. Viver a nossa própria criação, para além daquela que nossos pais e a nossa história infantil nos permitiu.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 13 de janeiro de 2011.

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