Quando um está bem o outro está mal

Luciene Godoy

Não digo que seja sempre assim, mas digo que acontece mais do que deveria!

Já notaram que acontece muito entre um casal em casa, num barzinho, numa festa, um estar bem humorado e o outro emburrado ou, pelo menos mais fechado, mais sem gracinha?

Isso é o que chamamos em psicanálise de “Relação em Espelho”. Relação engraçada esta! É porque no espelho vemos o nosso igual e o nosso oposto. Constatação óbvia na qual ninguém costuma pensar: no espelho o nosso braço esquerdo vira o direito, na verdade, os dois lados ficam trocados: o olho que é o direito no corpo, no espelho vira o esquerdo. Mas a cara está lá a mesma. Tudo iiiguaalzinho! Mas os lados trocados, o oposto e ao mesmo tempo o seu igual. Coisa esquisita!!

Por isso nas nossas relações mais chegadas existe o risco muito grande da mistura, de eu me confundir com o outro. O recurso mais “básico” para que eu não me confunda com o outro é vê-lo como meu oposto.

Olha só as armadilhas da convivência e da proximidade!

Um outro nome para a “Relação em Espelho” é o que Freud chamou de Narcisismo, meu reflexo no outro, visto como meu igual e meu contrário. Essa é uma das razões que tornam a proximidade tão difícil para o ser humano.

“O que não admito em mim, projeto-o no outro”. É o que diz a teoria do narcisismo.

Você já ouviu falar da estória dos porcos espinhos que estavam com frio e ao se encostarem para aquecerem-se mutuamente, darem conforto uns aos outros, espetavam-se e machucavam-se?

Esta situação de machucar-se ao aproximar-se parece muito mais com a do ser humano do gostaríamos de admitir!

Voltando: se não reconhecemos em nós jogamos no outro, não só coisas que nos desvalorizam, mas também qualidades. Por exemplo: no processo do apaixonamento o outro é tudo e eu nada. Nas palavras de Freud “Ao outro é atribuída todas as riquezas enquanto o eu do apaixonado fica empobrecido”.

Daí o fato de tantas músicas cantarem as agruras do apaixonado infeliz e abandonado, dizendo que apaixonar faz sofrer. Faz mesmo! Quem há de querer quem não se valoriza, pois, o eu empobrecido é isso – alguém que não vê o seu valor e o projeta no outro?

Como vemos, projetamos qualidades ou defeitos no outro. No fim é o mesmo processo: “alienação na imagem do outro”, cegueira acerca de si mesmo.

Parece desnecessário dizer, mas: separar o “eu” do “outro” é preciso, senão os espinhos não nos deixarão nos aproximarmos uns dos outros, nos amarmos e nos acalentarmos.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 16 de dezembro de 2010.

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