Como escapar da violência

Tenho medo (Ana de Medeiros, 1991)

Luciene Godoy

Será que ainda é possível alguém vir com algo novo, alguma sugestão ainda não “batida” para a questão da violência?

De que violência falo? Não da violência dos assaltos, das balas perdidas, dos trogloditas do trânsito, das doenças, da natureza  com suas chuvas, secas, ciclones, etc. Falo de uma violência que eu vou batizar com o nome de “Violência Extra”, aquela em excesso, aquela sem necessidade, aquela sobre a qual cada um pode interferir e fazer com que não exista na sua própria vida.

Ficamos dia após dia com aquele friozinho na barriga, aquele medo diluído ao longo do nosso dia, aquela “angústia basal” com medo da bala perdida que nunca nos pega, do acidente de carro que teima em não acontecer (“mas o parente de fulano morreu semana passada de acidente”), o nosso avião que não caiu (“mas o de Paris caiu, tem também aquele outro que quase caiu”). E por aí vai.

Televisão ligada o dia todo, noticiário de hora em hora, falando o tempo todo em violência. Por que será?

Por que todo mundo quer ouvir isso, passar e repassar a mesma coisa, saber todos os detalhes, pensando, ingenuamente, que se souber de tudo se safa do mesmo destino?

Porém o efeito que colhemos dessas atitudes é outro. Pensar dessa forma nesse tipo de possibilidade a traz para junto de nós o tempo todo. Com essa atitude, enfiamos a violência para dentro de nós como se estivéssemos enchendo uma linguiça!

Vivemos o medo de coisas cuja probabilidade de acontecerem conosco é muito menor do que a de não acontecerem.

Esta é a Violência Extra: vivemos diariamente um montante extra de medo do que não chega a acontecer. (Ah! Mas um dia pode acontecer, né?)

Sim, embora as probabilidades sejam muuuiiito menores (com dados estatísticos comprovando e tudo), pode, e, se acontecer, você verá que terá forças para enfrentar. A vida nos prova que sempre temos!

Se você é dos que vivem a violência pela qual os outros passam como se fosse a sua, devo informa-lo: você já se encontra no sofrimento sem fim da “Violência Extra”. Nem precisa ter medo da externa, da real, porque você já a traz para dentro que nem fruta podre que a gente põe dentro da sacola e leva pra casa para apodrecerem as boas.

É estragar a vida com as próprias mãos, quer dizer, com as próprias escolhas, não é?


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 7 de outubro de 2010.

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