Eu não sei o que aconteceu

Good Morning (Romero Britto, 2009)

Luciene Godoy

O ser humano segue uma racionalidade. As coisas têm causa e conseqüência.

Ok! É verdade.

Mas, e o monte de coisas que acontecem conosco e nós não conseguimos entender o que provocou a mudança? Paramos, pensamos, tentamos ver se fizemos algo que explique a tal mudança e concluímos que nada fizemos para que isso acontecesse.

Então onde ficou o princípio de “causa e conseqüência” quando nos deparamos com uma conseqüência e não localizamos a causa?

A criança quando vê os pais felizes pensa que eles estão contentes com ela.  Se, ao contrário, estão infelizes, idem, é ela também a causa.

No relacionamento amoroso isso tende a se repetir dessa mesma forma.

Amanhecemos felizes, o dia nos parece cheio de promessas, olhamos de lado e eis o nosso amor de “cara ruim”.

“Ai, ai, ai. Porque ele está assim? Eu não fiz nada! Ao dormirmos estávamos tão bem! E agora o que foi que aconteceu?”

E o dia continua com o “mal humorado” dando cacetadas a qualquer intervenção do “feliz”. Até que este, vitimizado, começa a ficar revoltado: “Por que me tratar assim se eu não fiz nada?”, pergunta atônito.

Alguém já disse (Marx?) que fazendo a pergunta errada jamais chegaremos à resposta certa.

Por que, como fazem as crianças, temos que relacionar sempre o estado de espírito de quem convive conosco com algo que tenhamos feito?

Não sabemos, pois, que o outro tem todo um universo interno do qual não fazemos parte? Todo o seu passado é construído com fatos e sentimentos que até ele mesmo desconhece? Significações, interpretações que ele dá ao que vai acontecendo no dia a dia e que não temos nenhum poder sobre esse processo?

Ao invés de procurar “o que eu fiz de errado pra ele ficar assim?”, se distancie. Pense que pode não ter nada a ver com você, mesmo que o outro diga o contrário, pois está imerso na confusão e indiferenciação dos mundos interno e externo. Olhe de longe. Diga: “Não é comigo”.

Aí, sim! Desse lugar distanciado você pode tentar ajudar. Deixando o outro falar. Dando conta de escutar sem se misturar. Tendo você a calma e a serenidade para dar ao outro o tempo de “por pra fora”.  Não se esqueça: “a boca fala do que o coração está cheio”.

Dar ao outro o tempo necessário para escutar a si mesmo e, só assim, chegar a descobrir, quem sabe, o motivo de seu mal estar, que muito freqüentemente não está fora, mas dentro, na própria maneira de processar os fatos do dia a dia.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 23 de setembro de 2010.

Anúncios

  1. Andreia

    Que artigo maravilhoso. E posso te dizer que depois de tantos anos de convivência com você, hoje em especial, entendi o que você sempre quis me com “não é comigo”. Só hoje depois de tantos anos de tantas vivências, entendi, minha ficha caiu.

  2. Maria Helena Ferreira

    Luciene, lembrei de quando você me falou para tirar das minhas costas as culpas de ter sido tratada com grosseria por alguém, pois o problema “não é comigo”. O problema é com o outro. Ai! que alívio! Só mesmo relendo seus artigos para aliviar a minha alma.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: